OS CÃES NUNCA ESQUECEM - PARTE I

 

 

 

 

Aníbal era homem calado, taciturno. Lia o mundo com as poucas letras que aprendeu na vida e o interpretava à sua maneira. Não era arrogante, mas sabia ser extremamente vingativo nas ocasiões necessárias. Era um viés exacerbado de seu caráter que conservava dos tempos de garimpo. Permaneceu nele a vida toda como a sífilis que também adquiriu por lá.

Nunca esqueceu os conselhos do velho Antão, o mais velho entre todos os garimpeiros, cego de um olho perdido numa briga por diamantes e mulheres: “Nunca provoque, mas também nunca deixe uma provocação sem resposta”. Isso foi logo que chegou a Morte Certa, o garimpo, debaixo de uma chuva que era um dilúvio, e o velho cego saiu de sua pequena barraca protegido por um oleado surrado para recepcionar o novo ajudante. Ainda completou com palavras que a chuva parecia tirar a dureza: “Imponha-se pela destreza e pelo medo senão será enterrado como um covarde”.

   Quando Aníbal abandonou o garimpo, levou consigo a desdita de nenhuma fortuna, um rosário de mortes, treze, para ser exato, e várias cicatrizes pelo corpo.

Não se vangloriava de nada, pois nem fortuna fizera. Mas tinha o espírito apaziguado pela certeza de que os autores daquelas marcas não poderiam jamais contar sobre elas a ninguém.

Procurou uma mulher e casou. Não foi uma louca procura, como quando desembestava na busca frenética de diamantes pelo medo de que o suplantassem. Foi uma decisão tomada com calma. Tanta calma Diolinda interpretava como falta de interesse por seus predicados. É bem verdade que os tinha poucos, mas suficientes para seduzir um homem que aos cinquenta anos e uma gota tolhendo seus movimentos não podia ser demasiado exigente. Casaram-se diante do vigário em desobriga pelo sertão onde Aníbal morava resguardado às costas pela serrania e à frente por um caudaloso rio.

Não poderiam ter filhos, souberam depois de várias tentativas. Era uma maldição impingida pelo garimpo. Nunca fora homem de lamúrias, apesar de tudo. Mas a uns poucos amigos falava de filhos. Era só quando o coração abria-se, embora ainda assim com reservas: “Um homem que vai ao garimpo morre um pouco a cada dia e não sabe disso”. Aliviavam-no essas poucas palavras, como a colchicina à gota, e não dizia mais nada. Mesmo os amigos, muitos deles, interpretavam essa sentença mórbida, que era um bordão em sua boca, como um enigma ou prenúncio de loucura.

Pela ausência de filhos, o casal de perdigueiros era a sua felicidade. Umas poucas vezes dissera com olhos brilhantes de lágrimas: “São os meus filhos; dão-me amor como nenhum vivente nesta terra”. Calava-se em seguida e o mutismo que o dominava era tão inescrutável quanto a escuridão da noite abarcando o mundo. Diolinda ficava a seu lado, também ela muda, os olhos igualmente marejados, a boca transida de dor num ricto que lhe descorava os lábios. Ninguém conseguia decifrar se em solidariedade à dor do marido ou amargurando a dor maior do amor preterido.

Numa manhã estival, o rio mostrando na areia fina e alva o caminho para vadeá-lo, um forasteiro apareceu em Diamantina, a sua chácara. Aníbal fora à caça e levara consigo somente Lampião, o cachorro. Maria Bonita ficara em casa, parida, com a travessa ninhada de filhotes. Recepcionou o estranho com dentes à mostra. Diolinda abandonou a cozinha para conferir o incômodo. Flagrou o estranho dando cabo de Maria Bonita com a mão de pilão que usava no preparo da paçoca de veado. Entrou em pânico e correu para a serra pela porta dos fundos. O homem não fez menção de segui-la. Ao contrário, ficou ali e satisfez-se em saquear a cozinha, levando farinha, arroz e feijão. O que ela já havia preparado para o almoço, comeu ali mesmo.

Quando Aníbal voltou da caçada, o saco com perdizes às costas, a espingarda sujeita ao ombro pela correia de couro cru, surpreendeu-se com a agitação de Lampião ao aproximar-se da casa. O cachorro desgarrou à frente. Como não podia correr, angustiou-se com a inquietude do perdigueiro. Coisa boa não era, presumiu. Na hora só pensou em Maria Bonita. No pátio dianteiro da pequena casa estava a cachorra morta, a cabeça partida; o sangue, já sorvido pelo chão arenoso, era uma mancha escura. Lampião gania e lambia a companheira. Ao lado, os filhotes indiferentes ao drama.

Aníbal largou o saco com as perdizes, lançou a espingarda com raiva ao chão, urrou bem alto como animal ferido de morte, e pegou Maria Bonita ao colo.

Cinco horas depois, Diolinda, voltando sorrateira da fuga, encontrou-o ainda assim.  

Ele passou cinco dias alimentando-se apenas de água e ódio. Só depois falou:

— Quem foi?

Ela encolheu os ombros, escusando-se por não saber.

— Quem foi? – gritou.

— Nunca o vi antes – desculpou-se uma vez mais.

— Como ele é?

— Só pude ver que não tem o indicador da mão direita quando levantou a mão de pilão.

 

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jjLeandro