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Blog do jjleandro
 


Amigos, um conto.

JOÃO PILOURA

 

Aqui se faz, aqui se paga.

Conhecido Rifão

 

 João Piloura matou três homens na adolescência. Por achar esse número modesto matou mais três quando adulto. As três primeiras mortes provocaram-lhe náuseas e ele vomitou após cada uma delas. Nas três últimas a reação foi distinta e sentiu calafrios pelo corpo. Após cada crime pensava na vida mas também na morte, essa coisa indesejada mas nunca esquecida. Na adolescência, marcou-o sobretudo a inusitada excitação. Já adulto, remisso a essas emoções iniciais, talvez o instinto o tenha feito perceber que a morte sempre próxima era tangível também para si. E o instinto, apenas ele, já que carecia de juízo, emitiu o sinal inequívoco da hora de parar. João Piloura parou. Mudou de cidade, tornou-se arredio e solitário. Adquiriu uma cabana e começou no insulamento de um bosque uma luta atroz contra os fantasmas que o perseguiam dia e noite.

 Passou a demonstrar evidentes sintomas de um homem que temia retaliações.

 O sono era leve e curto quando existia. Tornou-se um ser sobressaltado, para quem o mais suave canto de um pássaro que rompesse o silêncio instável da floresta era uma comunicação ardilosa entre inimigos que se aproximavam para emboscá-lo. Tomava por furtivo roçar de corpos nos galhos das árvores a constante blandícia do vento nas altas franças. O ouvido alerta, já traído pela tensão constante, interpretava como passos cautelosos de um grupo de captura na serapilheira a abundante e quase imperceptível queda de folhas secas no outono. Via com frequência no breu da noite homens que o queriam liquidar. Não recebia visita de espécie alguma, nem as desejava. Por duas vezes em três anos mudou de exílio após surpreender caçadores errantes em sua cabana. A cada fuga procurava brenhas menos acessíveis, literalmente tornara-se um antropófobo. A solidão já não bastava ser apenas um vasto mundo desabitado de gente, desejava-a obsessivamente despovoada de sons.

 Certo dia, farto da face humana, cometeu o desatino de destruir o único espelho da tapera onde vivia por temer um atentado da própria imagem. Daí em diante jamais viu um rosto humano; em seu delírio de fugitivo evitava até águas remansosas pela possibilidade de refletir a própria imagem.          

 Inquestionavelmente, João Piloura não era mais coerente.

 Entretanto reclamava de si mais e mais vigilância, pois tudo que já conseguira parecia pouco quando lhe sobrevinham os acessos paranóicos. Foi inevitável a reclusão voluntária como resultado natural de um demorado processo. Na mente excitada de João Piloura ela soou como a redenção. E ele não delongou tempo para concretizá-la. Valeu mais a obsessão pela vida que a vontade de ser livre. Uma caverna inacessível, uma lapa profunda é a solução, conjeturou um dia.

 Dois dias de buscas e o vezo de tapejara granjeou-lhe o refúgio adequado no penhasco mais alto de uma penedia protetora: ali nem as feras chegavam. Abandonou tudo na mudança para o novo retiro. Até as armas que protegeram o prolongado êxodo ele deixou para trás. Contra o que podia acontecer as armas seriam inócuas. Era a certeza da paz definitiva ou a premonição do fim próximo. Dizem que há homens com a faculdade de pressagiar o futuro, mas essa é outra história.

Por dois dias depois da mudança João Piloura descansou o espírito e o corpo; e o relaxamento inibiu a sede e a fome. Sentiu-se um homem renovado. Até o sono estirou-se por horas seguidas. Como se sentisse intangível sequer suspeitou que, indene à justiça humana, era vulnerável às implacáveis retaliações dos próprios medos: “Aqui eles não me podem alcançar”, e um tímido e inseguro sorriso de triunfo marcou-lhe levemente os lábios.

Na madrugada do terceiro dia, João Piloura não pôde fugir à dura realidade de serem os medos de um homem parte integrante de sua vida. Os fantasmas que o ameaçavam de fora começaram a devorá-lo por dentro quando todo homem está indefeso: no sono. Pesadelos terríveis marcaram aquela madrugada e as seguintes. Na escuridão da caverna João Piloura não distinguia o dia da noite. Por vezes o cansaço o prostrava e os pesadelos eram recorrentes, batendo-se Piloura valentemente pela vida, nem sempre obtendo êxito. Quando morria, acordava sobressaltado. Ironicamente, as várias mortes renovavam-lhe a vida. Minava-o, contudo, a irremitência dos pesadelos.

Não mais se atrevia pôr um pé fora da caverna. Seus hábitos solífugos e as vestes negras expressavam a ânsia de tornar-se invisível para melhor combater os inimigos caçados — numa derradeira mania — escarafunchando cada escaninho de rocha. Neste exercício escarnificou as mãos. Só o cansaço prostrava João Piloura, só os pesadelos o punham de pé. Sua vida passou a ser uma tormentosa sucessão de imagens desconexas do passado e do presente — o futuro não existia —, misturando crimes reais e imaginários; ele era sempre, a um só tempo, a vítima e o algoz.

João Piloura não sabia que expiava pecados e culpas numa preparação para a morte próxima, a única solução para a paz definitiva.

Na última noite de vida João Piloura banhou-se de lágrimas e tremeu de febre num pesadelo singular que representou a adiada batalha de um contra todos, mais avassaladora para um homem que a decisiva batalha de uma guerra para um povo. Não levantou os olhos para encarar o homem que se aproximou para aplicar-lhe o golpe fatal, pois não tolerava a figura humana. Apenas acumulou as derradeiras forças para uma fuga desenfreada e salvadora. Correu para a saída da caverna e lançou-se do alto do penedo.

Acordou no vácuo, infelizmente demasiado tarde para voltar atrás.

jjLeandro



Escrito por jjleandro às 11h07
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