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Blog do jjleandro
 


GRUPO DE RISCO

Numa dessas gincanas para pontuar na faculdade, minha filha recebeu a tarefa de arranjar 10 doadores, levá-los ao Banco de Sangue e ganhar dois pontos na matéria em questão no curso de Medicina.

Pensou que seria uma tarefa fácil, e foi até o nono doador. A coisa emperrou no décimo. O prazo mensal dado pelo professor para a coleta sanguínea estava expirando. Como conseguir o último estava dando trabalho, ela aproveitou a viagem de um amigo do sertão a minha casa para arrastá-lo a laço ao Banco de Sangue. Ele, com a simplicidade e presteza da gente do campo, não se fez de rogado. Perfilou-se e foi lá dar o braço à agulha.

Para agilizar, minha filha resolveu acompanhá-lo em todo o processo que, infelizmente, foi interrompido ainda durante a entrevista. O João Sanfona, é esse o nome dele por ser acordeonista no sertão, injuriou-se com a enfermeira atrás da mesa que o interrogava por minutos a fio e foi embora pisando nos calos. Minha filha disse-me depois que torcia e retorcia ansiosa os dedos, prevendo — pelo caminho que a entrevista tomara — que a coisa ia azedar. 

A enfermeira com ar maquinal cuspia uma pergunta atrás da outra ao pobre João que, entendendo-a ou não, era obrigado igualmente a cuspir uma resposta. Qualquer titubeio da parte dele evidenciava para ela uma culpa, que externava no sobrolho levantado acusativamente. O pobre homem foi aviltando-se diante daquela juíza travestida na imaculada cor dos anjos.

A coisa degringolou mesmo, segundo minha filha, nesse trecho do longo interrogatório que pretendia desnudar o pobre João dos seus segredos mais íntimos:

— Senhor João, o senhor tem mais de um parceiro?

Um segundo de demora na resposta. Para ele, talvez uma reflexão ou uma conta demorada, pois parecia articular uma contagem nos dedos. Para ela, uma tentativa de ludibriá-la, ou abrandar o impacto da verdade.

— Sim, senhora.

— E quantos na verdade nos últimos 12 meses?

Outra demora. E novamente os olhos dela por trás das lentes finas dos óculos olharam João severamente.

Minha filha ao lado, calada, torcia os dedos.

— Bem, senhora, 18 parceiros para dizer a verdade.

A enfermeira quase deu um pulo da cadeira. Repetiu a pergunta assustada, exigindo ao final a exata verdade: “O senhor tem certeza?”

— Sim, 18 parceiros.

Ela tossiu para disfarçar um falso escrúpulo e continuou:

— Com que freqüência os visita?

Ele abriu um sorriso espontâneo de contentamento antes de responder, o que soou como prova de luxúria para a enfermeira.

— Semanal. 

Ela fechou o cenho, bateu com força uma letra no teclado do computador e deu a entrevista por encerrada.

— Sinto muito, o senhor está rejeitado para doação por fazer parte do grupo de risco.

O João olhou alternadamente à enfermeira e à minha filha, buscando talvez uma explicação para aquela calúnia. Como podia aquelazinha acusá-lo assim descabidamente sem nunca tê-lo visto na vida?

— A senhora está completamente enganada. Não faço parte de Grupo de Risco nenhum. O meu grupo lá no sertão, e olha que todo mundo nos conhece e se anima nas festas que a gente toca, é João da Sanfona e os 18 Bambas.

Saiu dali azedo, batendo a porta de vidro que quase foi abaixo.

jjLeandro


Escrito por jjleandro às 13h59
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A MULHER OU O VIOLÃO

Todos nós apenas sentimos ciúmes do que gostamos e é-nos importante. Tentarei convencê-los que isso é realmente verdade com a pequena história que vou contar.

Nos tempos de faculdade, ali pelos idos de 1980, nas constantes rodas de discussão nos botecos do setor Universitário em Goiânia, um dos colegas, nos intervalos das aulas ou quando gazeteávamos, cada vez que o assunto se manifestava, era incisivo ao dizer que duas coisas na vida ele não emprestava, mesmo ao custo de perder o amigo: “minha mulher e meu violão”.

Eu que não tinha mulher nem sabia tocar, apenas ouvia a sua sentença; ele devia ter lá suas razões.

Tempos depois, numa outra rodada — constantes nos finais de semana —, o assunto voltou à pauta e ele reafirmou sua posição, um pouco modificada entretanto:

– Duas coisas não se deve emprestar: mulher e violão!

Percebendo a alteração, testei a sua convicção:

– Mesmo? Isso é ponto pacífico?

Ele levou o copo de bebida à boca, lambeu os lábios, pôs o copo sobre a mesa novamente e falou:

– Bem, em casos extremos, empresto a mulher.

Todo mundo riu. E antes que alguém falasse, eu me adiantei:

– Sabe, já que não sou chegado a violão, nem tocar eu sei, você me empresta a sua mulher?

Ele olhou rápido para mim. Tive a sensação que fora longe demais e esperei que se não me desse um soco ao menos seria grosseiro.

Mas nada disso. A sua resposta veio com humor.

— Infelizmente não posso.

— E por quê? — tornei, debaixo dos olhares apreensivos e dos risos contidos dos demais colegas.

Ele fez uma careta séria, bebeu outro gole, coçou a testa com a ponta dos dedos e em seguida pôs a mão amistosamente sobre o meu ombro.

— Não é marcação com você, entenda, é que ela está emprestada.

—Jura?

—Sim, juro. É que nenhum dos meus amigos gosta de violão...

—Que baita coincidência!

Os outro colegas cairam na gargalhada.

Eu continuei o papo, procurando demonstrar seriedade enquanto queria mesmo era rir.

— E você não fica chateado com isso? Quero dizer, com os seguidos empréstimos?

— Nem um pouco.

Diante de tanto altruísmo eu quis saber a razão, afinal se a mulher fosse minha tenho certeza que não a emprestaria em hipótese alguma. Se tivesse violão, talvez o emprestasse. Mas a mulher, não!

E ele foi claro:

— Sabe, agora toco toda noite em uma boate, é meu ganha-pão. Dou graças a Deus porque meus amigos não se interessam por meu violão. Já pensou se todos eles soubessem tocar? Com tanto empréstimo seriam até capazes de estragá-lo.

A mesa toda vibrou numa só voz, levantando os copos em um brinde:

— Arlindo, você é um cara de sorte!

Ele secundou, sozinho:

—Meus amigos, vocês também!

 

 

jjLeandro



Escrito por jjleandro às 09h10
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