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Blog do jjleandro
 


O INVEROSSÍMIL ASTRONAUTA BRASILEIRO

Brasileiro tem nome extraordinário para colocar nos filhos. Nomes que marcam por toda a vida. E aqui vou contar de um deles interessantíssimo que andava meio no ostracismo mas ganha destaque com a ida de Marcos Pontes ao espaço – o primeiro astronauta brasileiro. Em 1969, lá no interior, nascia mais um filho de amigos de minha família. O pai, aviador que não conseguira ser piloto na campanha da FEB na Itália, durante a Segunda Guerra, esperava o nascimento da criança para se realizar e vingar-se do sonho frustrado. Os americanos iam dar os primeiros passos na Lua. A Apollo 11 ia realizar o “grande salto para a humanidade”. Seu Hermenegildo, também entusiasta da corrida espacial, tinha o nome em segredo se o filho fosse homem. Dona Cotinha, a esposa, com o filho na barriga mas sem autonomia sequer para compartilhar a escolha do nome com o marido, gravitava a sua volta como um satélite artificial em busca de desvendar o segredo. Mas nada. Os amigos faziam aposta. Os nomes mais previsíveis eram Collins, Armstrong e Aldrin, dos tripulantes da nave. Mas seu Hermenegildo, com ares de quem possuía um grande trunfo, dava de ombros a cada investida. Era um túmulo!
Só quando a nave americana pousou na Lua, em 20 de julho, e o menino nasceu no dia seguinte, seu Hermenegildo correu ao cartório – ludibriando quem o desejava seguir para conhecer o segredo em primeira mão – e pimba! Registrou o garoto: Apollo 11 da Silva.
Em casa dona Cotinha quase foi ao céu e voltou antes mesmo do Marcos Pontes, como já ocorrera com o tabelião que tentou fazê-lo desistir da idéia. Não conseguiu. “O filho é meu”, foi o argumento irrefutável.
O menino cresceu e de tanto ouvir o nome acostumou-se à alcunha. Sim! Os desafetos de seu Hermenegildo tinham em conta que isso não era nome de gente, mas alcunha. A mãe, resignada, tratava-o com um eufemismo. Chamava-o somente Apollo. Mas na escola, nas raras vezes em que Apollo se sentia no alto, os colegas eram cruéis: “Apollo 11! Apollo 11!”. E entre alegrias e tristezas, a vida foi passando para Apollinho.
Quando tinha 17 anos tentou ser jogador. Entusiasmou-se e foi aos testes. Primeiro na zaga: era admirador do Oscar da seleção. Tinha até algum jeito nas bolas altas, mas era sofrível nas baixas. O técnico, condescendente, talvez para que não se sentisse excluído por culpa do nome – ou melhor, da alcunha -, tentou encaixá-lo como centroavante. Nessa posição também ainda não estava no estágio adequado. Nas bolas altas talvez valesse um tostão, mas seus chutes erravam o gol pela simples razão de teimarem entrar em órbita. Nova frustração. Tentou realizar-se no amor. Fracasso sobre fracasso. Vivia no mundo da lua. As meninas queriam alguém com os pés no chão. Vê lá se alguma mulher ia tolerar um homem – talvez estimulado pela alcunha – que dizia querer ser o primeiro astronauta brasileiro. E ainda mais num tempo em que sequer se sonhava com isso. Elas sorriam e despediam-no com um simples: “Apollo, desce! Apollo, desce!”.
Profissionalmente também dava tudo errado. Era fraco o seu desempenho em qualquer profissão, literalmente eclipsava-se.
Quando Marcos Pontes virou celebridade e transformou-se no primeiro astronauta brasileiro, eu liguei para o Apollo. Alguém havia roubado o seu lugar.
– E aí, rapaz, tudo bem?
– Beleza.
– Esse lugar do Pontes, por direito era seu, não?
Ele me surpreendeu pela simplicidade e conformismo:
– Qual nada.
– Claro que sim. Até o nome daria certo.
– É aí que você se engana.
– ??
– Apollo 11 não seria bem aceito pelos russos. Mesmo sem guerra fria eles não se sentiriam à vontade divulgando para o mundo um mito americano.
– É, parece lógico – concordei contrariado.
– Ficaria melhor se fosse o meu primo.
Intriguei-me. Não conhecia o primo dele.
– Seu primo??
– Sim, o Sputnik. Não o conhece? O pai dele invejou o meu. Mas lhe faltou criatividade.

(ESTA CRÔNICA AQUI REPRODUZIDA FOI PUBLICADA ORIGINALMENTE QUANDO MARCOS PONTES FOI AO ESPAÇO NUMA COSMONAVE RUSSA)

jjLeandro



Escrito por jjleandro às 22h48
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A Espera

 

 

"Por fim olhou o rosto muito murcho

e franzido entre as dobras da mortalha,

o bigode amarelado, as pálpebras

finas como papel. Aquilo não era sono.

Aquilo não era sono".

Todos os belos cavalos, Cormac McCarthy

 

 

 

     O dia amanhece mas a pouca claridade de fora quase não denuncia a aurora. O céu está fechado de nuvens escuras e a água cai abundantemente. Eliezer Dourado espicha o olhar para a pequena janela com vidro quebrado, muito alta, quase uma clarabóia, que deixa a claridade exterior filtrar à míngua para dentro do pequeno quarto do pardieiro onde mora. Agora ele está exausto, não dormiu nada nas últimas vinte e quatro horas e mantém os olhos abertos a custo embora as pálpebras teimem em querer ser um véu sobre eles. Os últimos acontecimentos foram os mais fortes e imprevisíveis de sua jovem existência. Jamais enfrentou situação igual, e pela falta de exemplo não sabe como se comportar. Fogem-lhe as forças conforme o tempo avança, não tem vontade de mover um único dedo, apenas repete a cada minuto o sestro de mover os olhos na direção da pequena janela, quem sabe, à espera de uma inesperada solução. A chuva, indiferente ao seu drama, continua forte e não dá qualquer sinal de que vai cessar.

Eliezer recosta a cabeça no velho penego que sua mãe utilizava para descansar a cabeça na enxerga do quarto miserável após a lida diária e lamenta que os vizinhos não apareceram. Em tal circunstância crítica são sempre solidários para mitigar a dor, oferecem conforto e palavras pias, e todos vêm. A solidariedade entre aquela gente pobre, perdida nos confins de um vale umente e triste — recorda Eliezer — , é a única coisa que os mantêm ali. “Com certeza a chuva impediu-os de aparecerem, bastaria um simples pedido de ajuda e todos estariam aqui”, conjetura Eliezer. Ele tem  certeza que de modo algum deixariam de prestar socorro a um necessitado. Por muito menos acudiram o Joca Bento quando o filho dele se desconjuntou de um tombo durante a doma de um potro. O Joca é viúvo, e, Eliezer recorda mais uma vez ao tempo em que as lágrimas são sugadas pelo algodão macio da camisa, sua mãe Isaura preparava todos os dias com desvelo a canja de galinha que era o alimento do convalescente. “O problema agora é essa maldita água que não pára”, esconjura injustamente o jovem Dourado, sem considerar as tantas vezes que sua mãe implorou chuva para amanhar a terra para o plantio quando ela se mostrava recalcitrante em interromper o estio. É verdade sim que tanta chuva nas últimas vinte e quatro horas torna ínvios os caminhos do vale, transformados em lamaçais que escondem armadilhas perigosas. Até o tranqüilo regato que corta o vale ao meio vira um rio largo, revolto e impiedoso, levando de roldão as fracas construções, plantações e as criações que não são retiradas a tempo das margens violentamente invadidas. Tudo  isso é impedimento para a gente solidária do vale estar com Eliezer neste momento.

O desespero recrudesce em Eliezer ante a perspectiva de continuar sem ajuda. Aos doze anos de idade, ele não sabe como enfrentar situação tão delicada. A chuva parece um inimigo feroz que o quer devorar, ruge com o vento e açoita constantemente uma metralha de grandes pingos contra o teto de zinco e a janela de vidros quebrados. Eliezer põe a cabeça entre as mãos, protege-a apertada contra os joelhos e chora silenciosamente de olhos fechados um choro impotente. Não pode ir lá fora, os caminhos estão intransitáveis e escuros, em toda tempestade é assim, ele sabe, não precisa sequer conferir. Angustia-se por ter de esperar quieto a providencial ajuda de alguém ou o fim da chuva. A sua condição é desesperadora, mas ele resiste. Com muito custo volta a controlar os nervos, procura na penumbra do quarto algo que o entretenha, mas não tem sequer um cachorro ou um gato que o possa distrair enquanto o tempo teima em manter-se fechado. Relembra num lamento dorido que sua mãe nunca gostou de pequenos animais domésticos, exceto aqueles que compunham a dieta alimentar da família demasiado pequena. Na casinhola moram a mãe e o filho, algumas galinhas num improvisado galinheiro na antiga cocheira do pangaré mosqueado, que já não é mais desse mundo e dois ou três capados na pocilga próxima ao regato. “A estas horas — deplora Eliezer — a fúria da correnteza já os deve ter levado”.

Retorna o pensamento para o seu drama, as lágrimas descem abundantes pelo rosto, mas dessa vez ele as reprime envergonhado. Não admite a possibilidade de ser um fraco. Embora seja apenas uma criança, sua mãe sempre lhe dizia que homem não chora, e ele pretende seguir a norma, pois a sabedoria popular de dona Isaura sempre prescreveu que desde pequeno o espinho traz a ponta. Afasta de si a possibilidade de render um preito a sua mãe, não que não a venere, mas por saber que é impossível pensar nela nesse momento sem efundirem dos olhos as lágrimas em grandes bagas.

O tempo imutável irrita Eliezer Dourado, que vê através da janela quebrada a chuva caindo sem fim. Também o incomodam as constantes saraivas de pingos percutidas pelo vento forte sobre o teto de zinco, que lhe ferem diretamente os nervos como profundas agulhadas. Ele abandona a cama e arrasta uma cadeira para debaixo da alta janela, imaginando uma maneira de diminuir a sua irritação enquanto aguarda socorro. Prende uma camisa velha à frente da janela de forma a bloquear a entrada da fraca claridade no quarto. Não deseja mais ver sequer o tênue contorno de objetos ou seres dentro do minúsculo quarto apinhado de quinquilharias. Às apalpadelas encontra um chumaço de algodão que sua mãe guardava em uma gaveta do velho toucador para seus serviços de manicure, único resquício de vaidade que ela conservou até a morte. Com o algodão atufa ouvidos e  narinas. Volta a deitar no catre e espera. Uma espera que sabe longa. Espera pela estiagem ou pelo socorro de alguém, mesmo que de um estranho em busca de abrigo, afinal a chuva impede que ele conte com a solidariedade dos vizinhos para enterrar a mãe morta há um dia, e que jaz ao seu lado no catre.

 

 

 

 

 jjLeandro



Escrito por jjleandro às 21h45
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OS CÃES NUNCA ESQUECEM - PARTE FINAL

Aníbal franziu a cara em dor acusando na cabeça o golpe da maça. Não falou por outros cinco dias. Durante esse tempo, toda manhã bem cedo quando as graúnas anunciavam em algazarra a alvorada na figueira do pátio onde Maria Bonita fora sacrificada pelo forasteiro, repetia o ritual de sentar-se numa cadeira na sombra fresca. Os olhos, mantinha-os fixos no local da morte da cachorra. Só entrava em casa com a noite avançada. Lampião a seu lado compartilhava a dor da ausência.

No sexto dia, Aníbal balbuciou cedinho para a mulher: “Vou ao compadre Baltazar”.

Arreou o cavalo, pôs a peixeira atrás no cinto, a espingarda à bandoleira e vadeou o rio. Diolinda prostrou-se diante da imagem de Nossa Senhora de Nazaré no quarto penumbroso, apesar da manhã festiva, onde bruxuleava a luz de uma vela de sebo.

Ali cochichou preces e chorou até a volta do marido.

Ele só retornou quando anoitecia e as sombras das árvores rastejavam pelo chão, espichadas pelo sol agonizante. Antes, porém, Aníbal conversou longamente com Baltazar. Fora seu último parceiro de garimpo e o tinha em grande estima. Era como um irmão mais moço, mais destro e sem o incômodo e os riscos dos achaques que envilecem o corpo. Igualavam-se, contudo, em crueldade. 

Aníbal disse, após contar-lhe o caso da morte da cachorra e o sinal que identificava o assassino: “Compadre, no garimpo é onde o homem aprende a não valorizar somente os diamantes”. O outro o entendeu perfeitamente e pôs sobre o ombro dele a mão num afago. Despediram-se.

No outro dia Baltazar saiu errante pelas redondezas.

Aníbal voltou ao hábito dos dias após a morte de Maria Bonita: a cadeira sob a figueira no correr do dia. À noite recolhia-se, mas o silêncio era sinal do grande luto. Diolinda sabia que ele esperava. Não lhe dirigia a palavra para não conspurcar a sua dor. Às horas certas, ele comia. Quando tinha sede, bebia água de uma cabaça que a mulher colocava ao lado da cadeira.

Da porta da frente ela o observava. O olhar dele parecia de vidro. Nem o vento alvissareiro do meio do ano fazia-o perder a gravidade. Parecia nunca piscar.

O cachorro, agora prostrado diante dele, com sol ou sombra, era uma esfinge.

Pelo décimo-quinto dia, à tarde, quando o sol torcia a sombra das árvores para leste, Diolinda saiu à porta da casa atraída pelo chapinhar de um animal no rio magro. Era Baltazar que chegava suarento e coberto de pó. De costas para o cavaleiro, Aníbal não deu sinal de vida. Lampião secundava-o alheio à sua obrigação de vigilância.

Quando a distância permitiu identificar o cavaleiro, Diolinda gritou:

—É Baltazar!

Nem assim Aníbal moveu-se. Baltazar apeou quase sobre ele e não lhe causou estranhamento a imobilidade do amigo.

Quando se virou, ouviu-o dizer num fio de voz que tremia de emoção, mas bem se podia dizer que era por causa do vento:

—Trouxe?

—Sim, compadre.

Entregou-lhe uma pequena bolsa de couro.

Os olhos de Diolinda, da porta da casa, pois não tivera coragem de aproximar-se, arregalaram-se aterrorizados. Soltou um grito e correu para dentro de casa. Os dois homens e o cachorro não lhe deram a mínima atenção.

Aníbal meteu a mão na bolsa e primeiro sentiu o contato úmido do sal. Remexeu-o com a ponta dos dedos e encontrou o que procurava: uma orelha. Seu coração disparou, os dedos tremeram, as artérias pulsaram violentamente, trazendo do passado os duelos de morte do garimpo. Ele engoliu em seco a dor que lhe obstruía a garganta. Baltazar conservava-se a seu lado, imóvel e silencioso. O cachorro também acusava silêncio e expectativa.

Aníbal retirou a orelha da bolsa. Repentinamente se transformou. Olhou-a demoradamente sem outro sentimento que a frieza. Conferiu ambos os lados. Tocou com um dedo a tira de pele abaixo do lóbulo e em seguida olhou para Lampião. Este pareceu compreendê-lo, pois se espreguiçou levantando e abanou o rabo. Aníbal jogou a orelha entre suas patas dianteiras. O cachorro salivou a boca num agradecimento, cheirou o petisco, lambeu-o e abocanhou-o, mastigando-o em seguida.

Quando Aníbal ia devolver a bolsa, Baltazar murmurou grave: “Também trouxe a mão”.

O velho garimpeiro repetiu o ritual. Mas dessa vez Lampião aparou a mão — que não tinha um dedo — no ar com um movimento perito. Foi mastigá-la, arrancando os dedos um a um sobre a mancha do sangue de Maria Bonita, que era já quase um nada.

— Os cães são como os homens, compadre. Nunca esquecem — disse Aníbal.

E levantou da cadeira para agradecer o favor que Baltazar lhe fizera.

 

 

 

jjLeandro



Escrito por jjleandro às 23h09
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OS CÃES NUNCA ESQUECEM - PARTE I

 

 

 

 

Aníbal era homem calado, taciturno. Lia o mundo com as poucas letras que aprendeu na vida e o interpretava à sua maneira. Não era arrogante, mas sabia ser extremamente vingativo nas ocasiões necessárias. Era um viés exacerbado de seu caráter que conservava dos tempos de garimpo. Permaneceu nele a vida toda como a sífilis que também adquiriu por lá.

Nunca esqueceu os conselhos do velho Antão, o mais velho entre todos os garimpeiros, cego de um olho perdido numa briga por diamantes e mulheres: “Nunca provoque, mas também nunca deixe uma provocação sem resposta”. Isso foi logo que chegou a Morte Certa, o garimpo, debaixo de uma chuva que era um dilúvio, e o velho cego saiu de sua pequena barraca protegido por um oleado surrado para recepcionar o novo ajudante. Ainda completou com palavras que a chuva parecia tirar a dureza: “Imponha-se pela destreza e pelo medo senão será enterrado como um covarde”.

   Quando Aníbal abandonou o garimpo, levou consigo a desdita de nenhuma fortuna, um rosário de mortes, treze, para ser exato, e várias cicatrizes pelo corpo.

Não se vangloriava de nada, pois nem fortuna fizera. Mas tinha o espírito apaziguado pela certeza de que os autores daquelas marcas não poderiam jamais contar sobre elas a ninguém.

Procurou uma mulher e casou. Não foi uma louca procura, como quando desembestava na busca frenética de diamantes pelo medo de que o suplantassem. Foi uma decisão tomada com calma. Tanta calma Diolinda interpretava como falta de interesse por seus predicados. É bem verdade que os tinha poucos, mas suficientes para seduzir um homem que aos cinquenta anos e uma gota tolhendo seus movimentos não podia ser demasiado exigente. Casaram-se diante do vigário em desobriga pelo sertão onde Aníbal morava resguardado às costas pela serrania e à frente por um caudaloso rio.

Não poderiam ter filhos, souberam depois de várias tentativas. Era uma maldição impingida pelo garimpo. Nunca fora homem de lamúrias, apesar de tudo. Mas a uns poucos amigos falava de filhos. Era só quando o coração abria-se, embora ainda assim com reservas: “Um homem que vai ao garimpo morre um pouco a cada dia e não sabe disso”. Aliviavam-no essas poucas palavras, como a colchicina à gota, e não dizia mais nada. Mesmo os amigos, muitos deles, interpretavam essa sentença mórbida, que era um bordão em sua boca, como um enigma ou prenúncio de loucura.

Pela ausência de filhos, o casal de perdigueiros era a sua felicidade. Umas poucas vezes dissera com olhos brilhantes de lágrimas: “São os meus filhos; dão-me amor como nenhum vivente nesta terra”. Calava-se em seguida e o mutismo que o dominava era tão inescrutável quanto a escuridão da noite abarcando o mundo. Diolinda ficava a seu lado, também ela muda, os olhos igualmente marejados, a boca transida de dor num ricto que lhe descorava os lábios. Ninguém conseguia decifrar se em solidariedade à dor do marido ou amargurando a dor maior do amor preterido.

Numa manhã estival, o rio mostrando na areia fina e alva o caminho para vadeá-lo, um forasteiro apareceu em Diamantina, a sua chácara. Aníbal fora à caça e levara consigo somente Lampião, o cachorro. Maria Bonita ficara em casa, parida, com a travessa ninhada de filhotes. Recepcionou o estranho com dentes à mostra. Diolinda abandonou a cozinha para conferir o incômodo. Flagrou o estranho dando cabo de Maria Bonita com a mão de pilão que usava no preparo da paçoca de veado. Entrou em pânico e correu para a serra pela porta dos fundos. O homem não fez menção de segui-la. Ao contrário, ficou ali e satisfez-se em saquear a cozinha, levando farinha, arroz e feijão. O que ela já havia preparado para o almoço, comeu ali mesmo.

Quando Aníbal voltou da caçada, o saco com perdizes às costas, a espingarda sujeita ao ombro pela correia de couro cru, surpreendeu-se com a agitação de Lampião ao aproximar-se da casa. O cachorro desgarrou à frente. Como não podia correr, angustiou-se com a inquietude do perdigueiro. Coisa boa não era, presumiu. Na hora só pensou em Maria Bonita. No pátio dianteiro da pequena casa estava a cachorra morta, a cabeça partida; o sangue, já sorvido pelo chão arenoso, era uma mancha escura. Lampião gania e lambia a companheira. Ao lado, os filhotes indiferentes ao drama.

Aníbal largou o saco com as perdizes, lançou a espingarda com raiva ao chão, urrou bem alto como animal ferido de morte, e pegou Maria Bonita ao colo.

Cinco horas depois, Diolinda, voltando sorrateira da fuga, encontrou-o ainda assim.  

Ele passou cinco dias alimentando-se apenas de água e ódio. Só depois falou:

— Quem foi?

Ela encolheu os ombros, escusando-se por não saber.

— Quem foi? – gritou.

— Nunca o vi antes – desculpou-se uma vez mais.

— Como ele é?

— Só pude ver que não tem o indicador da mão direita quando levantou a mão de pilão.

 

CONTINUA NA PRÓXIMA POSTAGEM

 

 

jjLeandro



Categoria: CONTO
Escrito por jjleandro às 23h08
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Amigos, um conto.

JOÃO PILOURA

 

Aqui se faz, aqui se paga.

Conhecido Rifão

 

 João Piloura matou três homens na adolescência. Por achar esse número modesto matou mais três quando adulto. As três primeiras mortes provocaram-lhe náuseas e ele vomitou após cada uma delas. Nas três últimas a reação foi distinta e sentiu calafrios pelo corpo. Após cada crime pensava na vida mas também na morte, essa coisa indesejada mas nunca esquecida. Na adolescência, marcou-o sobretudo a inusitada excitação. Já adulto, remisso a essas emoções iniciais, talvez o instinto o tenha feito perceber que a morte sempre próxima era tangível também para si. E o instinto, apenas ele, já que carecia de juízo, emitiu o sinal inequívoco da hora de parar. João Piloura parou. Mudou de cidade, tornou-se arredio e solitário. Adquiriu uma cabana e começou no insulamento de um bosque uma luta atroz contra os fantasmas que o perseguiam dia e noite.

 Passou a demonstrar evidentes sintomas de um homem que temia retaliações.

 O sono era leve e curto quando existia. Tornou-se um ser sobressaltado, para quem o mais suave canto de um pássaro que rompesse o silêncio instável da floresta era uma comunicação ardilosa entre inimigos que se aproximavam para emboscá-lo. Tomava por furtivo roçar de corpos nos galhos das árvores a constante blandícia do vento nas altas franças. O ouvido alerta, já traído pela tensão constante, interpretava como passos cautelosos de um grupo de captura na serapilheira a abundante e quase imperceptível queda de folhas secas no outono. Via com frequência no breu da noite homens que o queriam liquidar. Não recebia visita de espécie alguma, nem as desejava. Por duas vezes em três anos mudou de exílio após surpreender caçadores errantes em sua cabana. A cada fuga procurava brenhas menos acessíveis, literalmente tornara-se um antropófobo. A solidão já não bastava ser apenas um vasto mundo desabitado de gente, desejava-a obsessivamente despovoada de sons.

 Certo dia, farto da face humana, cometeu o desatino de destruir o único espelho da tapera onde vivia por temer um atentado da própria imagem. Daí em diante jamais viu um rosto humano; em seu delírio de fugitivo evitava até águas remansosas pela possibilidade de refletir a própria imagem.          

 Inquestionavelmente, João Piloura não era mais coerente.

 Entretanto reclamava de si mais e mais vigilância, pois tudo que já conseguira parecia pouco quando lhe sobrevinham os acessos paranóicos. Foi inevitável a reclusão voluntária como resultado natural de um demorado processo. Na mente excitada de João Piloura ela soou como a redenção. E ele não delongou tempo para concretizá-la. Valeu mais a obsessão pela vida que a vontade de ser livre. Uma caverna inacessível, uma lapa profunda é a solução, conjeturou um dia.

 Dois dias de buscas e o vezo de tapejara granjeou-lhe o refúgio adequado no penhasco mais alto de uma penedia protetora: ali nem as feras chegavam. Abandonou tudo na mudança para o novo retiro. Até as armas que protegeram o prolongado êxodo ele deixou para trás. Contra o que podia acontecer as armas seriam inócuas. Era a certeza da paz definitiva ou a premonição do fim próximo. Dizem que há homens com a faculdade de pressagiar o futuro, mas essa é outra história.

Por dois dias depois da mudança João Piloura descansou o espírito e o corpo; e o relaxamento inibiu a sede e a fome. Sentiu-se um homem renovado. Até o sono estirou-se por horas seguidas. Como se sentisse intangível sequer suspeitou que, indene à justiça humana, era vulnerável às implacáveis retaliações dos próprios medos: “Aqui eles não me podem alcançar”, e um tímido e inseguro sorriso de triunfo marcou-lhe levemente os lábios.

Na madrugada do terceiro dia, João Piloura não pôde fugir à dura realidade de serem os medos de um homem parte integrante de sua vida. Os fantasmas que o ameaçavam de fora começaram a devorá-lo por dentro quando todo homem está indefeso: no sono. Pesadelos terríveis marcaram aquela madrugada e as seguintes. Na escuridão da caverna João Piloura não distinguia o dia da noite. Por vezes o cansaço o prostrava e os pesadelos eram recorrentes, batendo-se Piloura valentemente pela vida, nem sempre obtendo êxito. Quando morria, acordava sobressaltado. Ironicamente, as várias mortes renovavam-lhe a vida. Minava-o, contudo, a irremitência dos pesadelos.

Não mais se atrevia pôr um pé fora da caverna. Seus hábitos solífugos e as vestes negras expressavam a ânsia de tornar-se invisível para melhor combater os inimigos caçados — numa derradeira mania — escarafunchando cada escaninho de rocha. Neste exercício escarnificou as mãos. Só o cansaço prostrava João Piloura, só os pesadelos o punham de pé. Sua vida passou a ser uma tormentosa sucessão de imagens desconexas do passado e do presente — o futuro não existia —, misturando crimes reais e imaginários; ele era sempre, a um só tempo, a vítima e o algoz.

João Piloura não sabia que expiava pecados e culpas numa preparação para a morte próxima, a única solução para a paz definitiva.

Na última noite de vida João Piloura banhou-se de lágrimas e tremeu de febre num pesadelo singular que representou a adiada batalha de um contra todos, mais avassaladora para um homem que a decisiva batalha de uma guerra para um povo. Não levantou os olhos para encarar o homem que se aproximou para aplicar-lhe o golpe fatal, pois não tolerava a figura humana. Apenas acumulou as derradeiras forças para uma fuga desenfreada e salvadora. Correu para a saída da caverna e lançou-se do alto do penedo.

Acordou no vácuo, infelizmente demasiado tarde para voltar atrás.

jjLeandro



Escrito por jjleandro às 11h07
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A CONTA

Busco diversão nos finais de semana. Mas não integro a grande seara das pessoas que procuram levar vantagem em tudo.

Dia desses estava com os amigos numa lanchonete e culpei a sobrecarga de trabalho da garçonete pelos erros que ela cometera.

Coitada dela, no primeiro erro ficou aflita, olhava-me com olhos suplicantes, alternando ainda olhares aos meus amigos e em direção ao caixa. Talvez lá estivesse o patrão e ela temesse ser demitida se ele ouvisse o nosso diálogo. No segundo erro não me lembro em que botei a culpa, talvez ela já estivesse nervosa.

Ela trouxera a conta que, conferindo o cardápio, eu já fizera mentalmente: dezenove reais. Comentei com os amigos: a conta está errada. Tá! Não tá! Tá! Não tá! E essa lenga-lenga se estendeu por alguns breves minutos. Um dos amigos, com uma ponta de maldade, testou-me: Ah! paga do jeito que tá e vamos embora.   O assentimento dos outros reforçou em mim a disposição de não levar vantagem.

Balancei a cabeça negativamente e chamei a moça. Ela esperava pelo acerto encostada no balcão, afastada um pouco de nós.

Ela veio.

Eu disse, balançando a comanda:

— A conta está errada.

— Errada, senhor?

— Sim, errada.

Meus amigos, rosto fechado, davam gravidade à cena. Ela, coitada, não parava os olhinhos aflitos sobre mim, ora em meus amigos, ora ao caixa.

Eu voltei à carga, quebrando o silêncio de alguns instantes.

— Você somou corretamente o nosso consumo?

Ela disse sem muita segurança e pálida:

— Sim, senhor.

Eu tranqüilizei-a, afinal, passando-lhe a comanda para que verificasse.

— Veja que a conta que nos apresentou vai lhe dar um prejuízo de cinco reais.

Ela recuperou o sangue na face, mas demorou ainda a responder. Por fim, exclamou num desabafo.

— Pensei que ia me acusar de estar aumentando a conta.

— Não —  respondi, dando-lhe uma nota de cinquenta reais  para a cobrança.

Ela foi até o balcão, explicou-se um pouco por lá com o caixa e após alguns segundos retornou com o troco. O seu semblante estava aliviado, até ensaiava no rosto um sorriso de agradecimento por lhe livrar de um prejuízo naquela noite.

Deu-me o troco, sorriu agradecida e desejou-nos boa noite.

Quando virava para afastar-se, eu a chamei.

— Moça, o troco está errado.

Ela paralisou os movimentos, ficou por algum tempo como uma estátua e retornou devagarinho, por certo acreditando que da segunda vez não escaparia de uma descompostura. Dois erros numa mesma noite era demais. E com o mesmo cliente, nem se falava.

Quando ela parou diante de nós, eu lhe disse:

— Dei-lhe cinqüenta reais para a cobrança, não foi?

Ela concordou com um movimento de cabeça.

— Você deveria me devolver trinta e um reais, certo?

Novo aceno com a cabeça.

— Pois bem, vamos conferir novamente o troco.

Coloquei nota a nota sobre a mesa. Ao final, perguntei a ela:

— Quanto temos aqui em dinheiro?

— Oitenta e um reais.

— Pois bem, você me deu cinqüenta reais a mais — sorri, devolvendo-lhe a nota.

Os olhos dela brilharam de agradecimento e o que conseguiu murmurar soou para mim como a revelação de que estava diante de um ser de outro planeta:

— O senhor jura para mim que é mesmo daqui?  

jjLeandro



Categoria: CRÔNICA
Escrito por jjleandro às 08h37
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NO MATO SEM CACHORRO

Precisava de um cão para levar à fazenda. Pela ausência de um, o lobo comera as galinhas poedeiras. Livres dele, as onças poderiam facilmente rondar a casa. O sono nas madrugadas quentes na varanda, quando o calor no quarto era ameaça de transformar a noite em vigília, seria impossível. E mais: o pastoreio do gado ficaria difícil sem o auxílio dele. Quem tocaria da macega para o pasto limpo as vacas com bezerros que se entocavam no mato fechado e de lá só saíam à custa de selvagens latidos e umas boas mordidas?

Analisando os últimos acontecimentos desastrosos na fazenda, saltava aos olhos que aconteceram pela falta de um bom cão de guarda impondo ordem em volta da casa. Mas não queria comprar um de raça. Andam por hora da morte nas casas veterinárias. Em criatórios particulares os filhotes custam os olhos da cara. E havia ainda um motivo sério para manter distância deles: não adianta levar para o mato um bicho desses; é cheio de vícios e prisioneiro de ração balanceada. A ruptura com uma vida urbana planejada desde o nascimento era a garantia de desambientação e estresse ao cão; por conta disso, os prejuízos ao novo proprietário seriam certos. Após muito matutar em uma solução, acreditei tê-la encontrado.

No dia seguinte iria ao Canil Público. Para lá encaminham os cachorros vagabundos colhidos na rua, os vira-latas acostumados a brigar pela sobrevivência. São cães calejados o suficiente para sentir pouco a troca da cidade pela roça.  

Fui bem recebido pelo funcionário. Ele levou-me a uma cela e apontou-me os vários cães disponíveis. Havia deles para todos os gostos, mas queria um talhado para o serviço. O que procurava destacou-se logo à primeira vista. Tinha porte médio e manchas pretas e brancas pelo corpo. O pêlo era curto, a cabeça sempre altaneira como nos bons sentinelas e o olhar arguto de um caçador de jaez.

Não vacilei nem um pouco. Disse ao rapaz, que esperava paciente agarrado às barras de metal da cela:

— Levo este.

Ele balançou a cabeça aprovando a minha escolha.

Quando saíamos pelo longo corredor, passamos diante de outra cela onde um cachorro descansava solitário.

Parei e perguntei ao funcionário:

— Por que está sozinho?

— Esse aí é bruto. Bruto mesmo. Quando estava junto com os outros, de um tapa só, estraçalhou três rivais a mordidas. E olhe que eram maiores que ele.

Não tive dúvidas, como os cachorros eram doados, propus levá-lo também.

Parece que a idéia agradou ao funcionário, pois ele deixou escapar um “Oba”, acrescentando ainda: “Ele se livrou de ir amanhã para o sal”.

No outro dia os dois estavam na fazenda. Rapidinho compreendi que pegara gato por lebre. Os danados não queriam dureza. Alegavam incompatibilidade ao novo trabalho. Aliás, ao primeiro trabalho deles; antes o que faziam era mendigar ou trapacear nas ruas. Quando fui retirá-los do carro, agarraram-se em mim ganindo de medo: “Temos medo de cobra, ai, ai, ai!”

Quando quis levar o cão malhado ao curral para tocar as vacas, acusou de pronto uma doença. Tossiu roufenho “task’, “task”, “task” a fim de convencer-me que era asmático: “Não tenho voz, não conseguirei tocá-las; sinto muito. Além do mais, a poeira do esterco vai sufocar-me”, e foi se esconder entre os sofás da sala.

No dia seguinte, após o almoço, eu cochilava na rede da varanda depois de uma manhã de trabalho duro. Fui acordado pela carreira em que chegou o cão bravo ao pé da rede, vindo do saleiro do pátio. “O que houve?”, saltei da rede assustado. Lívido, ele tinha a cor de uma vaca nelore: “Acho que vi uma onça, era uma onça, sei que era uma”. E botava as patas sobre os olhos, querendo esquecer a visão que tivera. Eu procurei acalmá-lo: “Como era ela, pode dizer?” Ele balançou a cabeça concordando. Levantou as patas dianteiras em forma de arco sobre a cabeça enquanto gemia como um desvalido. “Não era uma onça”, caçoei, caindo na gargalhada. “Juro que era, juro que era”. E reforçou sério a descrição, dizendo a cor da pelagem: “Era branquinha como aquela galinha”, e apontou para uma das galinhas de granja que trouxera com eles para a fazenda. Não pude segurar o riso: “Você viu uma vaca, seu moleirão”. Para mostrar-lhe o que era uma onça, fui à sala e peguei o retrato de uma. Foi mostrar-lhe e ele cair duro com as quatro patas para cima.

Estava definitivamente no mato sem cachorro.

 

jjLeandro

 



Categoria: CRÔNICA
Escrito por jjleandro às 23h33
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GRUPO DE RISCO

Numa dessas gincanas para pontuar na faculdade, minha filha recebeu a tarefa de arranjar 10 doadores, levá-los ao Banco de Sangue e ganhar dois pontos na matéria em questão no curso de Medicina.

Pensou que seria uma tarefa fácil, e foi até o nono doador. A coisa emperrou no décimo. O prazo mensal dado pelo professor para a coleta sanguínea estava expirando. Como conseguir o último estava dando trabalho, ela aproveitou a viagem de um amigo do sertão a minha casa para arrastá-lo a laço ao Banco de Sangue. Ele, com a simplicidade e presteza da gente do campo, não se fez de rogado. Perfilou-se e foi lá dar o braço à agulha.

Para agilizar, minha filha resolveu acompanhá-lo em todo o processo que, infelizmente, foi interrompido ainda durante a entrevista. O João Sanfona, é esse o nome dele por ser acordeonista no sertão, injuriou-se com a enfermeira atrás da mesa que o interrogava por minutos a fio e foi embora pisando nos calos. Minha filha disse-me depois que torcia e retorcia ansiosa os dedos, prevendo — pelo caminho que a entrevista tomara — que a coisa ia azedar. 

A enfermeira com ar maquinal cuspia uma pergunta atrás da outra ao pobre João que, entendendo-a ou não, era obrigado igualmente a cuspir uma resposta. Qualquer titubeio da parte dele evidenciava para ela uma culpa, que externava no sobrolho levantado acusativamente. O pobre homem foi aviltando-se diante daquela juíza travestida na imaculada cor dos anjos.

A coisa degringolou mesmo, segundo minha filha, nesse trecho do longo interrogatório que pretendia desnudar o pobre João dos seus segredos mais íntimos:

— Senhor João, o senhor tem mais de um parceiro?

Um segundo de demora na resposta. Para ele, talvez uma reflexão ou uma conta demorada, pois parecia articular uma contagem nos dedos. Para ela, uma tentativa de ludibriá-la, ou abrandar o impacto da verdade.

— Sim, senhora.

— E quantos na verdade nos últimos 12 meses?

Outra demora. E novamente os olhos dela por trás das lentes finas dos óculos olharam João severamente.

Minha filha ao lado, calada, torcia os dedos.

— Bem, senhora, 18 parceiros para dizer a verdade.

A enfermeira quase deu um pulo da cadeira. Repetiu a pergunta assustada, exigindo ao final a exata verdade: “O senhor tem certeza?”

— Sim, 18 parceiros.

Ela tossiu para disfarçar um falso escrúpulo e continuou:

— Com que freqüência os visita?

Ele abriu um sorriso espontâneo de contentamento antes de responder, o que soou como prova de luxúria para a enfermeira.

— Semanal. 

Ela fechou o cenho, bateu com força uma letra no teclado do computador e deu a entrevista por encerrada.

— Sinto muito, o senhor está rejeitado para doação por fazer parte do grupo de risco.

O João olhou alternadamente à enfermeira e à minha filha, buscando talvez uma explicação para aquela calúnia. Como podia aquelazinha acusá-lo assim descabidamente sem nunca tê-lo visto na vida?

— A senhora está completamente enganada. Não faço parte de Grupo de Risco nenhum. O meu grupo lá no sertão, e olha que todo mundo nos conhece e se anima nas festas que a gente toca, é João da Sanfona e os 18 Bambas.

Saiu dali azedo, batendo a porta de vidro que quase foi abaixo.

jjLeandro


Escrito por jjleandro às 13h59
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A MULHER OU O VIOLÃO

Todos nós apenas sentimos ciúmes do que gostamos e é-nos importante. Tentarei convencê-los que isso é realmente verdade com a pequena história que vou contar.

Nos tempos de faculdade, ali pelos idos de 1980, nas constantes rodas de discussão nos botecos do setor Universitário em Goiânia, um dos colegas, nos intervalos das aulas ou quando gazeteávamos, cada vez que o assunto se manifestava, era incisivo ao dizer que duas coisas na vida ele não emprestava, mesmo ao custo de perder o amigo: “minha mulher e meu violão”.

Eu que não tinha mulher nem sabia tocar, apenas ouvia a sua sentença; ele devia ter lá suas razões.

Tempos depois, numa outra rodada — constantes nos finais de semana —, o assunto voltou à pauta e ele reafirmou sua posição, um pouco modificada entretanto:

– Duas coisas não se deve emprestar: mulher e violão!

Percebendo a alteração, testei a sua convicção:

– Mesmo? Isso é ponto pacífico?

Ele levou o copo de bebida à boca, lambeu os lábios, pôs o copo sobre a mesa novamente e falou:

– Bem, em casos extremos, empresto a mulher.

Todo mundo riu. E antes que alguém falasse, eu me adiantei:

– Sabe, já que não sou chegado a violão, nem tocar eu sei, você me empresta a sua mulher?

Ele olhou rápido para mim. Tive a sensação que fora longe demais e esperei que se não me desse um soco ao menos seria grosseiro.

Mas nada disso. A sua resposta veio com humor.

— Infelizmente não posso.

— E por quê? — tornei, debaixo dos olhares apreensivos e dos risos contidos dos demais colegas.

Ele fez uma careta séria, bebeu outro gole, coçou a testa com a ponta dos dedos e em seguida pôs a mão amistosamente sobre o meu ombro.

— Não é marcação com você, entenda, é que ela está emprestada.

—Jura?

—Sim, juro. É que nenhum dos meus amigos gosta de violão...

—Que baita coincidência!

Os outro colegas cairam na gargalhada.

Eu continuei o papo, procurando demonstrar seriedade enquanto queria mesmo era rir.

— E você não fica chateado com isso? Quero dizer, com os seguidos empréstimos?

— Nem um pouco.

Diante de tanto altruísmo eu quis saber a razão, afinal se a mulher fosse minha tenho certeza que não a emprestaria em hipótese alguma. Se tivesse violão, talvez o emprestasse. Mas a mulher, não!

E ele foi claro:

— Sabe, agora toco toda noite em uma boate, é meu ganha-pão. Dou graças a Deus porque meus amigos não se interessam por meu violão. Já pensou se todos eles soubessem tocar? Com tanto empréstimo seriam até capazes de estragá-lo.

A mesa toda vibrou numa só voz, levantando os copos em um brinde:

— Arlindo, você é um cara de sorte!

Ele secundou, sozinho:

—Meus amigos, vocês também!

 

 

jjLeandro



Escrito por jjleandro às 09h10
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AINDA NÃO ERA A HORA

 

Havia dias que tentava fazer isso, mas sempre adiava. Seria agora. Sobre a mesa deixou a carta para Juliana. Ela tinha a chave, acharia o bilhete de despedida. Talvez entendesse seu gesto.

Em seguida desceria até a garagem do prédio. Seria lá sem bisbilhoteiros por perto. Estava acostumado à solidão e não reclamava. Morava sozinho e isso o tornara caprichoso ao rigor; nada fora do lugar. Antes de sair do apartamento, olhou uma vez mais a sala. As pequenas bromélias regadas, as violetas descansando próximas à janela. O perfume noturno das flores das orquídeas ainda muito forte no ambiente fechado.

Conferiu a carga e ajeitou o revólver no coldre sob a axila. Na vida de investigador de polícia acostumara-se a tal ponto com o volume da arma pregado ao corpo que já não o sentia mais. É tudo uma questão de hábito, refletiu. Não se acostumara à solidão? Era esse hábito que o fazia resistir às constantes investidas de casamento de Juliana.

Ela entenderia o seu gesto extremo?

Na garagem, um amplo salão iluminado, estava sozinho. Como previra. Quase nenhum carro. Às nove horas da manhã, os moradores estavam em sua maioria no trabalho. Estava livre e desimpedido para o que ia fazer. Sacou o revólver e apontou para o alvo. Pressionou o gatilho. Errara o alvo, droga! Seria por causa do silenciador? Não era acostumado a usá-lo na arma. Mas ali era indispensável para não atrair curiosos. Tinha muita munição, isso não era problema.

O celular tocou e ele interrompeu uma nova ação.

— Alô?

—Aqui é Dayse, secretária do delegado Alcides.

—Diga, Dayse!

—Ele avisa que o campeonato de tiro foi adiado para a semana que vem. Pede para o senhor confirmar presença no stand de tiro da Academia todas as tardes, a partir de hoje, para treinamento.

—Confirmado, então vou parar o treino de emergência na garagem.

—Obrigada.

Voltou às pressas para o apartamento, devia rasgar a carta para Juliana antes que ela aparecesse. Sentiu que ainda não estava pronto para o rompimento.  

 

 

jjLeandro



Escrito por jjleandro às 18h55
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CORTANDO O PORTUGUÊS

 

Quem disse que só letrados fazem poesia? E poesia com estilo, com o estilo das roupas da alfaiataria do seu Eleutério, no interior do Brasil. Eu passava pelo povoado onde ele mora quando a originalidade da poesia me chamou a atenção.

Estava escrita na platibanda da alfaiataria em letras grandes na parede azul, quase um azul celeste, descorada pelo tempo. Com certeza já fora mais firme. No entanto a chuva e o sol aproximaram a pintura de um tom poético. As letras vermelhas também já não tinham o sangue de  outrora, perdiam vida. Desmaiavam. Mas ainda assim havia poesia por todo lado. Até o povoado tem um nome interessante: Lavras.

Pois bem, a publicidade na parede chamou-me  a atenção e entrei no pequeno cômodo, quase ao final da única e curta rua, espremido entre duas construções também não garbosas. A porta de madeira, larga, também velha, carcomida pelo tempo e os cupins estava completamente escancarada. Sobre um velho balcão de ipê – me disse ele depois  – fazendas, linhas e agulhas teciam a costura poética de seu Eleutério e as roupas de versos de seus clientes. Ao fundo, uma velha máquina Singer. Alguns cabides no lado oposto sustentavam o sonho de elegância de muitos que buscavam o seu trabalho.

– Bom dia!

– Bom dia! – retribuiu.

Vi em seus olhos um brilho que não existia nas coisas ali. Por trás dos óculos, remendados com materiais diversos, havia uma dignidade de artífice. Brilharam ainda mais quando me viu entrar, suponho. Talvez porque me imaginou um cliente.

– Quer um terno de roupa? – perguntou.

– Gostaria muito, mas agora não!

Senti que o desapontei um tanto.

– Estou só de passagem – justifiquei.

– Ahn! – engrolou a língua e voltou ao trabalho de alinhavar a barra de uma perna de calça, sentado sem camisa diante da velha Singer.

– Fiquei curioso, por isso entrei! – disse.

Ele voltou-se. Agora ele curioso.

– Curiosidade? Com quê? – disse desconfiado.

– É que vi ali na parede o nome da alfaiataria. Gostei.

Ele abriu um sorriso feliz e agradecido.

– O senhor não é o primeiro que me diz isso.

– Jura?

Ele balançou a cabeça, satisfeito, e com a seriedade de quem não mente.

– Sabe que é uma poesia?

   “Tizora di oro.

   Moldi e roupa

   Qui acenta,

   Duis pé a venta.”

  Agora é o senhor quem diz. Muita gente me disse que achava bonito – acudiu com  a simplicidade da gente do interior.

– Mas é uma poesia. Muito bela e com humor.

Ele abriu-se, completamente.

– Sabe, sou pernambucano. Já fiz alguns versos. Sou repentista. Precisava dum nome pra alfaiataria e botei isso em cima. Parece que ficou bom. Quem não faz roupa, faz como o senhor: vem aqui elogiar.

 

A conversa rendeu. E se eu não fosse  embora, íamos alinhavá-la horas a fio. Mas antes de eu ir ainda me disse:

– Antigamente em minha cidade, Sertânia, tinha um trem que passava no meio da rua. E como o povo lá era repentista – todo ele – botou-se uma placa alertando:

“No meio da rua passa

O trem. Cuidado

Quando ele vem.”

Dei-lhe um abraço e fui embora. Também feliz.

 

jjLeandro



Escrito por jjleandro às 14h46
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O CIRURGIÃO INGLÊS

Estive recentemente no Pará e ouvi de um velhinho uma estória que me deixou estarrecido mas também me fez rir.

Ele é morador antigo da região de Altamira e o fato que vou narrar, segundo ele, aconteceu aí pela década de 1960. Era ainda um rapaz, mas já casado, quando o caso aconteceu.

Disse-me que um dia sentiu uma forte dor próximo ao umbigo, que foi crescendo e em pouco tempo o deixou puxando da perna direita. Ele morava um pouco retirado de um desses povoados que nascem e somem com a mesma rapidez com que o homem saqueia as riquezas das florestas. O lugar chegou a ter por algum tempo um hospital rudimentar. A sua mulher logo se alarmou, lamentando: “Ai que você morre e as onças vão comer nós tudinho”. Como era ribeirinho, pressionado pela mulher e o choro do filho único, pegou a canoa, colocou-os dentro e a duras penas, com o auxílio dos dois, remou para a cidade.

Foi bater no hospital, chegando lá esbaforido e manco, clamando por santos e remédios.

O único médico do lugar era um velho inglês, sir Scotch Butcher, cirugião do exército de sua majestade nas campanhas da África do Norte contra os alemães do marechal Rommel. Estava ali porque gostava de aventuras, era o que dizia. Dizia também que nos momentos críticos das batalhas da segunda guerra chegara a operar cerca de cem homens ao dia. Meio doido pelos percalços da guerra, não vacilava contudo em fazer um diagnóstico e muito menos em operar.

Recebeu-o à porta da construção de madeira desconjuntada e conduziu-o amparado até uma salinha com uma mesa de metal enferrujada e um catre aos pedaços. Diagnosticou rápido o seu caso, chamando imediato a enfermeira para o preparo do paciente.

 Como era meio surdo, disse quase gritando, o que afligiu o pobre homem pelas caretas que fazia:

 — Vamos tirar o apêndice — e saiu para a sala ao lado.

Quando voltou, já de avental, assustou-se por não ver mais o paciente. As explicações da enfermeira, também surpesa, não o convenceram.

— Me diga, cadê o coxo que tava aqui, mulher?

— Ele fugiu, doutor Butcher — e encolhia os ombros como a eximir-se de qualquer culpa.

— É impossível, aquele coxo não podia sumir assim tão rápido. Ele se arrastava quando chegou aqui... — e procurava desconfiado por trás dos velhos móveis.

Quando constatou que o homem não estava mais no hospital, depôs a faca sobre a mesa enferrujada e cuspiu longe o cigarro de palha que jogava nervosamente de um canto ao outro da boca. Esmorecido, sentou na cadeira e pôs as mãos sobre o avental com nódoas escuras de sangue, desabafando:

— Sabe, dona Perpétua, o Pará é um bom lugar, é sim. Corre por aqui muito dinheiro, tem muita diversão com mulheres e caçadas. Peixe se acha pra todo lado — e fez um gesto expansivo com a mão. — Mas, no duro, o que impede a gente de ganhar dinheiro são esses cabras frouxos que aparecem e somem como vaga-lume.

O doutor Butcher suspirou profundamente e se levantou. De relance,  olhando a faca de dez polegadas sobre a mesa, se perguntou:

— Será que esses cabras têm medo de meu bisturi?  

A enfermeira encolheu os ombros num gesto de escusas e solidariedade.

 

Depois que ele me contou essa história eu lhe perguntei:

— E o que o senhor fez com a apendicite?

Ele sorriu, explicando-me que ficara bom, simplesmente.

— Não devia ser mesmo ela, né?

— Mas o senhor correu esse risco, assim de graça?

Ele balançou a cabeça negativamente. Outra estória do doutor Butcher o assombrava e a todos os moradores do lugar.

— Um  pobre homem anos antes chegara no hospital com os mesmos sintomas do meu caso. O doutor virou para ele, dando tapinhas nas costas, e disse: “Isso a gente resolve logo, logo. É só tirar o apêndice”. Cortou, mas depois constatou o erro e não houve como ludibriar o paciente. Teve que admitir o erro: “Era para cortar o apêndice, e cortei o pinto!” O homem entrou em desespero: “Doutor, o que vai ser de mim agora?!” Sir Butcher, consolando-o, disse: “Não haverá problema algum, você é um homem de sorte, ora bolas”. O coitado, chorando, gemeu: “Com tudo isso o senhor ainda diz que sou um homem de sorte?!” Ele confirmou com a cabeça e disse depois: “É sim, veja que cortei o pinto, tudo bem. Mas ficaram dois ovos, vai nascer outro pinto, não tenha dúvida”.

 

Depois de dar um suspiro de alívio, o velhinho que fugira do cirurgião inglês, segredou-me:

— Foi por isso que fugi de lá. Havia perdido os ovos tempos antes num acidente com a espingarda de caça.      

 

jjLeandro



Categoria: CRÔNICA
Escrito por jjleandro às 19h49
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